TRIBUNA LIVRE
O sonho do tri acabou.
Ganhar ou perder é do jogo.
Por melhor que as equipes se preparem para um campeonato uma coisa é certa: no final, apenas um será campeão.
A glória de vencer só existe pela possibilidade da derrota.
Tudo isso, sabidamente, faz parte do futebol.
A derrota de ontem, no entanto, me deixou um sabor muito amargo.
Perdemos pequenos, sem nunca termos mostrado o que viemos fazer nesta Copa Libertadores.
As grandes atuações, como a vitória por 3x0 contra o Fluminense, foram a exceção e não a regra.
No Grêmio deste ano tudo parece grande; o plantel milionário, o técnico consagrado e experiente, o enorme estádio Arena de padrão europeu, a imensa torcida empolgada e esperançosa, a tradição e a camiseta de um time copeiro...
Menos o futebol que é a razão de tudo; esse está cada vez menor.
Sim, devemos admitir que faltou mostrar futebol compatível com todos os predicados mencionados.
O super time que foi montado, na prática, nunca apareceu; parece contido, acanhado.
A Ferrari andou sempre com o freio de mão puxado.
A promessa do time estourar uma vez que entrosasse, ficou sendo apenas isso... Uma promessa.
Não há mais tempo para nada.
O sonho acabou.
Estamos fora.
A prioridade do ano, que justificou os enormes investimentos na montagem do plantel de jogadores, e a desistência do campeonato gaúcho, entre outras renúncias; a grande competição para ser celebrada no palco de luxo da Arena terminou para nós, sem pena nem glória.
E quem nos desclassificou? Outro super time? Uma equipe sulamericana de grande tradição?
Não quero desfazer da equipe do Santa Fé, que teve seus méritos, conquistando com justiça sua passagem à semifinal; mas a verdade é que nada, a não ser a boa campanha da primeira fase e a imprevisibilidade do futebol, fazia crer que este seria um adversário à altura do Grêmio na fase de mata-mata.
Um time modesto, sem estrelas, nenhum esquema tático mirabolante, muito menos tradição internacional.
O próprio estádio é menor que o Olímpico de antigamente, sem o anel superior.
De impressionante, apenas a enorme bandeira cobrindo a arquibancada e a própria torcida no intervalo com os dizeres ufanistas "La Fuerza de un Pueblo" (A Força de um Povo).
Tão grande seria essa força, capaz de neutralizar o favoritismo do tricolor gaúcho?
Sem querer retirar méritos do adversário nem fazer objeções à justa comemoração de sua apaixonada e barulhenta torcida, mas lambendo as próprias feridas do alto de meu gremismo, que está de luto por mais este fracasso, me atrevo a afirmar que o Grêmio não fez a sua parte.
O Grêmio perdeu para sí mesmo, antes que o Santa Fé se atrevesse a contrariar as previsões.
O Grêmio foi despretensioso, pequeno, diante de um adversário sabidamente limitado.
Aferrado a uma vantagem mínima, o Grêmio apostou todas suas fichas no empate, como quem enfrentasse um Barcelona.
Noventa minutos rezando para o modesto time do Santa Fé não conseguir fazer um golzinho; dando balão, chutando a bola para o lateral, deixando o Barcos isolado no ataque ou chamando-o de volta para ajudar a defesa...
Teve bola no poste, milagres do Dida, mas o esquema covarde montado para a partida desenhou a crônica da morte anunciada.
Noventa minutos é uma eternidade para um time que praticamente só se defende... Uma hora a bola entra, como entrou.
E bastava que uma bola entrasse para desmanchar a exígua vantagem que o Grêmio trouxe de Porto Alegre.
A partir daí restaram poucos minutos para o Grêmio fazer exatamente aquilo de que abdicou durante o jogo inteiro: atacar, tentar o gol.
O time adversário era tão frágil, que nosso gol não saiu por um detalhe no pouco tempo em que o Grêmio, por pura necessidade, lançou-se desesperado ao ataque.
Mais uma prova do crasso equívoco estratégico.
Tivesse sido do seu tamanho, me arrisco a dizer que o Grêmio teria vencido a partida.
Mas esse Grêmio pequeno que se apresentou no El Campín não pode ganhar de ninguém, muito menos conquistar um título como a Libertadores.
Não quero ser comentarista de resultados. O resultado de ontem, de fato, poderia ter sido outro, por essas coisas do futebol.
Se o Santa Fé não fizesse aquele gol, ou se a arbitragem tivesse visto e marcado o impedimento milimétrico do jogador que fez a tabela para a jogada fatal...
Se o Vargas tivesse convertido aquela derradeira chance nos descontos, sem goleiro...
Se, se, se... Poderíamos, sim, estar comemorando...
Mas sempre com o "rabo entre as pernas", sem que o Grêmio jamais tivesse nos mostrado as credenciais de um time com cara de campeão.
Nem rebeldia mostramos; marchamos e pronto, ao natural.
Até os discursos na saída de campo pareciam chochos.
Os jogadores estavam tristes, sim, mas conformados.
Abatidos, mas não indignados ou surpresos.
Podem até não admitir, mas eles são os primeiros conscientes de que o time não está jogando bem.
Talvez o Santa Fé tenha até nos feito um favor ao interromper o sonho nas oitavas, nos poupando de um vexame ali adiante contra um adversário mais qualificado.
O fato concreto é que o Grêmio não está jogando nada há um bom tempo e nosso técnico parece indolente e, como um encantador de serpentes, vem driblando a realidade com sua grande capacidade mediática.
Seu talento de "showman" é o único que tem aparecido ultimamente.
Sua capacidade como técnico, da qual ninguém duvida, há muito não dá o ar da graça.
Podemos até debater as causas disso; se é desmotivação, o conforto de um excelente contrato com o clube, ou qualquer outro motivo.
Só não podemos negar que seu trabalho não está correspondendo às nossas expectativas.
Enfim, nosso principal objetivo do ano foi embora pelo ralo na fria noite de ontem.
Nos resta esperar pelas mudanças que permitam salvar o ano e nos devolver o sonho de ver um Grêmio jogando com cara de Grêmio, do qual temos visto, quando muito, alguns lampejos.
Um abraço a todos e viva o Grêmio!!!
Alejandro Miguel Sánchez
Sócio do Grêmio
Membro do MGAT